Capítulo UM - A Lápide Ao Sol

- Seu celular tá tocando. 

Ela disse com aquela voz serena que ele tanto amava, e nem assim conseguiu prestar atenção. 
Só queria aproveitar a brisa da manhã que acariciava as folhas da aroeira que lhes provia aquela maravihosa sombra. Era bom e tranquilo ver os pássaros felizes cantando sobre a lápide que vez por outra furtavam o brilho do sol aconchegante. Nem parecia um cemitério. Vez por outra, os pêndulos de bambu ecoavam alguma melodia, um jazz da natureza, e ele os associava ao nome encravado na lápide ao sol.

MARIA HELENA TRINCADO

 2008 - ✝ 2018

- Tá tudo vazio aqui dentro. - João falou balançando a mão perto do peito. - É um abismo sem fim, sabe? Eu venho aqui pra pensar sobre o quanto eu perdi, mas eu sempre acabo me lembrando do quanto eu era feliz, e nem sabia. Que bosta, né? Será que é assim pra todo mundo? Será que é todo mundo assim tão idiota quanto eu fui? Não... Deve ter alguém ai... Uma ou duas pessoas que dão valor ao que tem, né? Que acordam de manhã e abrem aquele sorrisão. Eu nem lembro qual foi a última vez que eu fiquei feliz.

- Pára... Não fica assim, não. - Ela falou enquanto acariciava seu rosto. O toque do celular tomou o canto dos pássaros; contaminou a santidade do local; Tirou ele do transe. O momento já havia passado. - Quem é que tanto te liga? Quem é a safada?

Ele olhou pra ela com aquele olhar de reprovação, mas que na realidade não tinha moral pra reprovar nem a si mesmo. 

- É do distrito. 

- Você tá de licença. Não precisa atender. - Ela agora vestia a feição de reprovação outrora trajada por ele.

João atendeu a ligação, e em poucas palavras confirmou sua ajuda numa consultoria. Uma garotinha de oito anos desapareceu de dentro da própria casa na tarde de ontem. 

- A gente não precisa ajudar, João. Existem outros inspetores, sabe?

- Eles é que não precisavam me chamar, Paula O favor quem tá fazendo são eles. - Ele resmungou e guardou o aparelho no bolso. Namorou uma última vez com a lápide, encarou o céu por entre as folhas da aroeira e olhou de longe outra lápide, uma bem em baixo da árvore, quase no tronco. 

- Você quer ir lá? - Paula perguntou.

- Hoje não. Ainda não. - Ele falou deixando um sorriso escapar pela tristeza na voz. Paula sacou. Ela sempre sacava. - Vamo indo que o caso é sensível. 

- O que o escrivão falou?

- Nada.

- Nada?

- Quem ligou foi o delegado.


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