Capítulo QUATRO - Memorabilia


- Se não dá tempo, - Paula indagou. - Então como fizeram o impossível acontecer? - João virou seu rosto para o lado. O casal estava averiguando os cômodos da casa, na improvável chance de ver algo que toda a equipe forense pudesse ter deixado passar. 

- Esse quarto é uma fofura. Me lembra nosso apartamento. - Disse João enquanto segurava um dos livrinhos infantis da pequena Beatriz. "Matilda" de Roald Dahl. Conseguia até sentir pela luva as marquinhas das páginas de papelão amassadas nas inevitáveis quedas que as crianças dão nas coisas. - Me lembra àquela sensação, lembra? De acordar no fim da tarde com o dom do ventilador, e te ver desenhando na mesa. Nua, claro.

Paula o encarou e se recostou de braços cruzados sobre um balcão com alguns outros livrinhos de infância. Ela falava demais em um olhar, mas sabia que só o olhar não seria suficiente. 

- Eu ainda não acredito que você vendeu nosso apartamento. Sinceramente. - Disse ela.

João sorriu. Jogou o livrinho sobre a cama, e se voltou para beijar a parceira, que o interrompeu friamente. 

- Pega o livro da menina - Ela disse, o empurrando com uma mão em seu peito. - E coloca onde tava. Você encontrou arrumado! Então coloca no lugar, né?

Então, o intelecto que lhe rendeu a profissão e o chamado pessoal pelo delegado geral decidiu agir, quase que por mágica, como um raio violento que acerta a àrvore solitária do campo. 

- Isole o prédio inteiro, Luz. Tudo. Todo mundo. - Disse Trincado correndo em direção à sala de estar. 

- Pô, João, fala sério, cara. Óbvio que ninguém entra nem sai. Foi a primeira coisa que a gente fez. Tá louco? - O inspetor Eduardo nem percebeu que havia levantado a voz. Foi um impulso tão natural quanto a de João, de subestimar os colegas. 

- Certo! Desculpa! Mas a menina sumiu ontem. Ontem! Já é quase meio dia. Você já verificou qual morador saiu do prédio ainda na tarde de ontem, ou noite de ontem? Já?! - João se viu então no auge de uma revelação.

- Só três moradores precisaram sair para o trabalho hoje pela manhã, e os três informaram à nossa equipe. Os locais de trabalho já foram confirmados, e averiguados! Caramba, mermão! Tá aqui pra ajudar ou apontar o dedo? - Eduardo foi capaz de abaixar a voz e soltar a provocação em baixo tom. Paula foi quem puxou João pelo braço e sussurrou pra ele que talvez ele estivesse agindo de forma impulsiva.

- Não é isso não, Eduardo. - Disse João, agora mais recomposto. - A questão é outra. Se vocês já confirmaram os locais e os moradores, então a gente precisa lidar com o óbvio. 

- O óbvio...?

- Olha pra esse lugar... - João olhou ao redor do apartamento. Percebeu alguns policiais atentos às suas falas. Os pais de Beatriz ao longe no quarto, ainda prestando depoimento a uma policial. A coleção de bebidas por trás da arca de madeira náutica. A coleção de raros livros em miniatura à vista pela porta entreaberta de um escritório. Os controles da TV e do video-game um ao lado do outro. - Tudo tá errado nessa história. Não tem testemunha. Não tem tempo. Não tem nem sequer um brinquedo fora do lugar! A casa tá um brinco! A menina não tentou correr, não lutou, não pediu ajuda! Era alguém que ela conhecia. Alguém do círculo social dela. Entende?

- Se for o caso, a placa da van vai mostrar quem é. Isso... - Eduardo falou enquanto tentava não se confundir com as palavras de João. - Isso não altera em nada a investigação.

- Claro que altera. Significa que a van não fez nada. Significa que o sequestrador é alguém do prédio. E que a menina nunca foi embora em van porra nenhuma. 

- Então... - Paula associou depois de sacar a linha de raciocínio. Ela sempre sacava. 

- Então a menina ainda está no prédio!









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