Capítulo TRÊS - 30 Segundos

- Ele não voltou pra casa não, sinhô. Inclusive a gente aqui tá todo mundo preocupadim com esse sumiço. O Miguel é um homem bom. Honesto. Trabalhador. Deus abençõe que vocês encontrem logo ele, ave Maria, quero nem de pensar de algum mal ter acontecido. Deus me livre! Até porque--

- Tá bom, senhora. Já deu pra entender, obrigado. Obrigado pelo café. - João se levantou junto junto de Paula e se retirou da humilde casa de interior da dona Elizangela, tia avó do porteiro Miguel, desaparecido desde a tarde de ontem, quando a pequena Beatriz sumiu misteriosamente, sem sequer aparecer nas câmeras de segurança.

- Vem cá... - Paula sussurrou a caminho do carro. - Você viu que tinha uma toalha jogada na cômoda do quarto?

- Vi. Ele fugiu, né? - João falou segurando o queixo com a mão trêmula. - Preciso comer. O café me deixou doidão. 

- Fugiu. Tá envolvido, ou tá assustado? - Paula tentou confirmar sua teoria.

- Os dois, não? Duplamente fodido? 

- Isso é uma observação, ou uma proposta? 

João entrou no carro com aquele sorriso quebrado, vulnerável, e o olhar de quem já viveu demais. Ligou o carro, observou a casinha mais uma vez. Virou o rosto pra Paula.

- Até parece... 

O caminho de volta foi calmo e sereno. As pastagens antes de voltar à estrada pareciam estar em paz com os ventos secos do interior. Paula encostava o rosto sobre a mão, enquanto observava os campos. João dividia sua atenção; a estrada à frente, a so seu lado, o que ainda lhe restava de bom. Mas até quando? Naquele momento, com toda aquela estrada pela frente, ele desejou que aquele momento não viesse a um fim. Desejou que a estrada não o levasse até o horizonte, e que o perfume daqueles cabelos escuros e brilhosos não se disipasse jamais. Sorriu em meio a tamanha estupidez. Sonhar é natural. Sonhar acordado é pra idiotas. Ela logo partiria. Era até estranho que ainda não o tivesse feito.

- Paula? 

- Tô aqui...! Eu cochilei. Que houve? Onde a gente tá? Voltamos? - Paula, sonolenta, indagou ao perceber que João havia estacionado o carro na praça em frente ao prédio da pequena Beatriz desaparecida. 

- Falei com a equipe. Quer ver os vídeos de segurança comigo?

- E precisa perguntar? Mas calma... Come algo antes, vai. Quer passar mal de novo? - Ela percebeu. Claro. Mas foi aí que ele sorriu e levantou um saco plástico quase pingando óleo. Não dava ao certo pra saber se era um salgado, uma coxinha, um pastel, ou um pouco de tudo junto e misturado. - Era melhor passar mal.

- Bora logo. O técnico já separou o material. 

...

- Então... - Disse João ao entrar novamente no apartamento 606 e ao aproximar-se do colega de profissão. - Segundo a babá, a Beatriz sumiu por volta das 15h, ou pelo menos foi nesse horário que ela percebeu a abdução alienígena. Então eu comecei a observar os vídeos do hall e da garagem a partir das 14h até o momento em que a moça saiu correndo pelo corredor. E até o momento em que a tal van decidiu ir embora - Explicou João com bastante paciência.

- Mas o pessoal do vídeo já viu essa filmagem. Não tem nada, João. - Respondeu o inspetor responsável Eduardo Luz. 

- O pessoal do vídeo assiste essas coisas com a velocidade aumentada em em 50%, quando não no dobro da velocidade, Eduardo. E eu entendo, eles tão atrás de movimento. Mas deixam passar outras coisas. 

- Outras coisas? Que coisas? - O inspetor Luz então fez juz ao nome, e uma luz de fato acendeu no fundo dos seus olhos. Era o brilho de uma explicação pra um caso tão absurdamente improvável.

- Tem 30 segundos de vídeo faltando. Meio minuto, Eduardo. 

- Puta que pariu! - O inspetor levou a palma da mão até o rosto e olhou em volta. Alguns outros agentes pereberam sua aflição, mas não se aproximaram. Ele precisava iniciar uma investigação imediatamente com base na nova informação. - Precisamos supor que a menina foi levada nesse momento. É a única explicação! Mas... Meio minuto? Caralho! Levaram ela até a van no estacionamento em trinta segundos? Como?

João encarou Paula com um olhar tenso. E então voltou seu olhar pro colega. 

- Não dá. - João disse balançando a cabeça. - É impossível... 

Comentários

  1. Muito bom! Tô reconhecendo essa história do café, dor e péssima alimentação kkkk

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    1. Qualquer semelhança com a realidade NÃO é pura coincidência! rsrsrs

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