Capítulo DEZ - A Lápide Sob a Árvore
- Não vai ser nem um pouco difícil provar que esse livro era da Bia, atleta. - Disse João enquanto o suspeito à sua frente parecia estar em conflito consigo mesmo. - Eu entendo, sabe? Você fez tudo certinho. O horário, o tempo... Mas não podia adivinhar que ela ia trazer uma lembrancinha. Então, que tal falar logo onde a menina tá? E aí, quem sabe o juíz considera sua boa ação.
- Eu não sei de onde veio esse livro. E não vi nenhuma menininha, inspetor, a não ser essa da capa... - Disse o homem, lançando suas palavras tranquilamente, como num bote que deslizava sobre um sereno lago de argumentos. - ...mas já que o senhor gosta tanto da história, quem sabe você não encontra alguma outra pista ridícula ai dentro, né? E agora, se me dão licença, eu tenho meus horários, e preciso acordar cedo.
João se mostrou surpreso pela resposta. Não pensou que o homem fosse continuar posando de inocente depois de uma prova tão concreta. Ele deveria ter algum trunfo, pensou. Algo... Alguma garantia...
- João... - Eduardo sussurrou por trás do amigo. - Precisamos continuar as buscas nos outros dois apartamentos. Ainda há esperança.
- Ela está aqui. Procurem novamente. - Disse João em alto e claro tom. Os agentes trocaram olhares entre si, e depois com Eduardo, aguardando um sinal de aprovação.
- João! - Eduardo exclamou.
- A Helena está aqui! Eu tenho a mais absoluta certeza! - Berrou João enquanto desceu a mão sobre a pedra de mármore do bacão ao seu lado. A raiva e a frustração eram lhe pesavam tanto sobre a alma, que nem percebeu o que havia feito. O erro. A troca.
- Beatriz, João... - Eduardo o corrigiu com o coração pesado. Ele havia conhecido a pequena Maria Helena alguns anos atrás, e conseguia enxergar perfeitamente os motivos pelos quais João se deixou afetar. Mas não havia momento pior pra demonstrar tamanha fragilidade. - A menina se chama Beatriz. Você... Confundiu.
- Ela está aqui. - Trincado olhou para os lados. A feição tomada pela frustração silenciosa. Olhou para os cantos da cozinha, para o mármore do balcão, para o teto... Respirou fundo e levantou-se como quem erguesse um mundo nas costas. Pior... Uma vida. - Busquem tudo mais uma vez. Por favor.
- João...
- Só mais uma vez, Eduardo. - Não era sempre que se via aquele olhar. A certeza tangível. A necessidade íntima e pessoal. - Por favor.
- Vamo lá, gente... Mais uma rodada. Olhem tudo de novo! Tudo, hein!
- Isso é um absurdo! - Renato se levantou bruscamente em busca de justiça.
- João, não vem não? - Questionou Eduardo quando viu o amigo sentando-se novamente à mesa.
- Não... Leva o agente aqui pra buscar. Ele pode encontrar algo novo já que não procurou nada ainda. Eu fico aqui com o atleta agora. - Respondeu João sem tirar os olhos do suspeito. - Vão, vão...
- Não... Leva o agente aqui pra buscar. Ele pode encontrar algo novo já que não procurou nada ainda. Eu fico aqui com o atleta agora. - Respondeu João sem tirar os olhos do suspeito. - Vão, vão...
Eduardo e os demais agentes saíram da cozinha, mas Paula inclinou-se contra a parede adjacente aos dois homens.
- A gente vai encontrar ela, tá? - Disse Paula. João concordou com um olhar sutil, que expressava mil palavras. Um código de namorados do qual o segredo apenas ela sabia decifrar.
- Eu tinha uma filha, sabe? Ela também gostava muito de ler. Igual a menininha que você sequestrou. - Disse João. Renato sorriu, mas não foi o sorriso mais pleno do dia. Sentia-se preso, e novamente João sentiu que algo o confortava. - Ela sempre quis uma piscina... Uma casa bem bonita, com uma churrasqueira e um deck. Chega a ser estranho. A coincidência é que tá acabando comigo...
- Com a gente. - Corrigiu Paula. - Só que a Helena queria um banheiro dentro da piscina, lembra? - Ela disse enquanto ria pra si, passando a mão nos cabelos. E então olhou pra João, que a olhava de volta ainda inconsciente, mostrando um leve sorriso moldado nos lábios.
E foi gradual... Ele viu a mudança em seu belo semblante, e percebeu que a lembrança lhe sussurrou algo que a deixou ciente... Mas o que? O que era, Paula? O que é que o teu olhar me fala, ele pensou.
- Banheiro na piscina... - Ele falou pra si mesmo. - Eu lembro...
- Oi? - Interrompeu Renato, que pensou ter ouvido algo que o incomodou.
O inspetor João Trincado então, sem perceber, ergueu um tanto o rosto, de forma a encarar Renato Cegonha de igual pra igual. A expressão facial do inspetor era o mais absoluta ausência de qualquer emoção ou sentimento. Encarava seu suspeito fria e calculistamente. Ele sabia. Havia descoberto algo no olhar e na fala de Paula.
- Inspetor? - Disse Renato.
- Que tipo de deck com piscina... - Respondeu João. - Fica a uma escadaria de distância do banheiro mais próximo?
Renato sorriu, oscilou a cabeça pra frente e pra trás, como quem concordasse, ou reconhecesse a vitória de um oponente. Colocou a mão por baixo da mesa, e tão rapidamente quanto um pensamento cruel, puxou de lá um revólver preso com fita isolante, e o apontou para João.
- Calma, inspetor. Calma. - Disse o sequetrador em um calmo e baixo tom. - Coloque sua arma calmamente sobre a mesa. Isso ainda pode acabar bem pra todo mundo.
- João, calma. - Disse Paula.
- Tá tudo bem, atleta... - João falou enquanto lentamente sacava a arma. - Aqui, ó... Pegando a pistolinha... Só com dois dedinhos... Qual é teu plano, atleta?
- Já falei que nin--
Pah!Pah!Pah!Pah!Pah!Pah! BANG! BANG!
Pah! Pah! Pah! Pah!
- JOÃO! - Paula berrou e se arremessou sobre o inspetor quase que imediatamente após os primeiros disparos trocados pelos homens! A sua agilidade, entretanto, insuficiente para que pudesse impedir ou sequer auxiliar em algo.
Pah! Pah! Pah! Pah!
- JOÃO! - Paula berrou e se arremessou sobre o inspetor quase que imediatamente após os primeiros disparos trocados pelos homens! A sua agilidade, entretanto, insuficiente para que pudesse impedir ou sequer auxiliar em algo.
João continuava com a pistola em mãos, apontando ainda para seu rival, sentado bem a sua frente. Houve então um estrondo, quando o revólver de Renato caiu ao chão, enquanto o mesmo sangrava pela boca em detrimento dos dez ferimentos de bala causados pela astúcia e ousadia de João....
- Filho da puta burro... - Balbuceou Trincado, olhando nos olhos de Cegonha, enquanto a vida lhe desfalecia rapidamente aos poucos, como toda uma vida que se extingue em um breve e último suspiro...
- João! Que porra foi essa?! - Eduardo gritou há alguns passos de distância enquanto os demais agentes o acompanhavam, todos cautelosos com suas pistolas em mãos. - Você matou o cara, João?! Puta que pariu, cara! E a menina, imbecil?! Você tá bem?! Ele te acertou?!
- Não...! - João falou enquanto Paula o abraçava, e ele se aproveitava pra cheirar seus cabelos negros. - Ele tava com um revólver... E ainda pediu pra eu pegar a minha arma. Ah, uma jaula!
- Mas João, pô! - Eduardo e os outros agentes se aproximaram. Dois dos agentes averiguaram a situação do suspeito, enquanto que o inspetor questionava o amigo. - E a menina?! Ele falou onde ela tava?!
- Falou sim... Eu que demorei pra... Pra sacar! Sobe lá com os caras. Todos vocês. Derrubem... o espelho grande que tá do lado da mesa. Vão! Rápido! Eu aposto meu café que tem um vão secreto... Originalmente o banheiro do andar de cima.
- Bora lá, galera! Subindo! Rápido! Costa! Desce e pede pra todo mundo subir aqui pra dar assistência! João, você fica ai! - Ordenou Eduardo.
Os três agentes e o inspetor subiram o mais rápido que puderam. O espelho laminado estava muito bem preso à parede, e não parecia servir como porta, até que um dos agentes cautelosamente empurrou o mesmo, na esperança de servir como uma alavanca de pressão. O espelho então cedeu, e recuou. Os homens acenderam suas lanternas, e jogada sobre vários equipamentos de rapel e seringas usadas, sujas de ketamina, estava Bia, totalmente imóvel e pálida. Eduardo a pegou nos braços e conferiu se a garotinha estava viva. A pele fria, e um tom demasidamente pálido quase destruíram a moral de todo o grupo... Até que ele anunciou...
- Ela tá viva! Chamem o socorro! Rápido! Rápido! Ela tá completamente dopada, coitada!
Enquanto Eduardo descia as escadas carregando a garotinha com a ajuda dos outros agentes, não conseguiu deixar de perceber o pior de tudo... De um lado, o cadáver do sequestrador Renato Cegonha, e do outro... Uma cadeira vazia, e um rastro de sangue...
...
- Puta que pariu, João! Custava esperar a ambulância, idiota? Você tá sangrando muito! Pára esse carro! Dá meia volta e vai pro hospital! Por favor! - As súplicas de Paula lhe castigavam os ouvidos, pois ele ainda não tinha aprendido a lidar com a sua voz de sofrimento. Aliás, já era tarde demais pra isso. Não daria a volta coisa nenhuma. Mal conseguia manter o carro na faixa... Quem diria dar a volta.
- Eu sei exatamente... - Ele começou a falar, mas o fôlego lhe fugia enquanto dava espaço para a fraqueza e a náusea. Só mais um pouco... Por sorte, a cidade não era nenhuma megalópole. Logo logo estaria no destino.
- Sabe exatamente o que? Pára a droga desse carro, João! Agora! - Ela berrava como nunca. Estava genuinamente chateada, e por aquele sentimento, ele sentia profundamente. Mas somente por aquilo. Pelo resto, nem tanto.
- Eu sei o que tô fazendo, Paula. Só... Só fica comigo até lá... - A chuva começou e era quase bem vinda. Um argumento a mais para impedir a loucura dos 120km/h com os quais ele colocava em risco a própria vida, e a de qualquer infeliz que ousasse atravessar a avenida do estádio fora da passarela. Estavam próximos. Só mais um pouco... Só mais um ou dois quilômetros.
- Por que você tá fazendo isso, João? - Ela perguntou quando finalmente desistiu de colocar juízo na cabeça dura do idiota atrás do volante. Ele quase nem diminuiu quando fez a curva pra direita de uma vez, arrebentando o portão de ferro, invadindo o cemitério, e quase matando o pobre vigia noturno que dormia como um príncipe.
O carro seguiu por alguns metros até parar. Os faróis iluminavam uma parte da escuridão, e apontavam com mira certa as milhares de gotas da chuva torrencial que parecia buscar lavar as atitudes de um louco desgovernado...
- Chegamos...- Ele disse. Ao longe, a lanterna do vigia balançava. Ele não teria coragem de vir verificar quem era o demente que invadia o cemitério à meia noite numa chuva tão violenta quanto o próprio invasor. - Vem, ou fica? - Ele perguntou... Babando e cuspindo, balbuceando palavras quase inaudíveis enquanto o sangue escorria cada vez mais pelo abdomen abaixo. Paula desceu do carro, enquanto ele se deixou pela porta aberta.
João se arrastou pela rua que cortava o cemitério, e depois pela grama molhada, enquanto a chuva o castigava com um frio tão maligno quanto o que sentia dentro da sua alma. Ele tomou abrigo em baixo da aroeira, e olhou pra lápide de Maria Helena ao longe. Não conseguia ver a pedra por conta do escuro e da chuva, mas sabia que estava lá... Sorriu brevemente, enquanto tremia e morria... Se apoiou um pouco no tronco da árvore, e se sentou sobre a lápide que que havia evitado ainda naquela manhã...
- Não era pra ser assim, João... - Disse Paula. Sua voz firme, suave, e meiga. Ela, então, segurou a mão do inspetor, e sussurrou em seu ouvido.
- Eu sei, amor... - Ele disse. - Já já... Já.. já...... Já já eu chego.................
Seu corpo caiu para o lado, manchando a lápide sob a árvore com seu sangue ainda quente, que então se permitiu namorar com as frias águas da chuva, revelando então o nome encravado à pedra...
ANA PAULA TRINCADO
☆ 1989 - ✝ 2020
Comentários
Postar um comentário