Capítulo OITO - O Cafezinho.
- Giovana, rapidinho.... - João dirigiu a palavra à moça, enquanto os demais presentes suspeitos reuniam-se à sala. O sol já havia se despedido por trás dos demais prédios que juntos montavam as montanhas artificiais da paisagem. Lá e cá, como vales de concreto, um céu alaranjado era a cicatriz temporária de uma bela, porém triste tarde. - Não é procurando ofender, mas cê pode passar um cafézinho pra gente? Quem vai querer?!
Paula balançava a cabeça reprovando a atitude, mas um sorriso típico lhe revelava o senso de humor sombrio, um que só ele sabia acessar. Ela rapidamente se recompôs e ergueu o rosto, arremessando os cabelos negros ondulados por cima do ombro, e ele, como sempre, reparoue se perdeu naquela graça por um breve momento.
- Cafezinho? Mas num momento desses o senhor pede um cafezinho!? - A própria Giovana se mostrou relutante e ofendida.
- Acontece que o inspetor João acabou de obter uma informação precisíssima, - Eduardo intercedeu quando João, após questionado pela inconveniência do café, o encarou com cara de cachorro sem dono. O colega, já familiarizado com as manias do outro, sabia que o cafezinho era um passo essencial. - Ele geralmente toma um cafezinho pra comemorar, ou quando descobriu algo importante...
- E digo mais...- Disse João. - Giovana, se eu te disser que você foi de suspeita pra meliante, e que eu fortemente acredito na sua inocência, você pode, se não for muito além da sua delicadeza, preparar um cafezinho bem fortinho pra todo mundo?
- O que é que tá acontecendo, hein? - Larissa reuniu as forças e perguntou, rasgando a voz pela dor de cabeça e por um rosto demasiadamente inchado de tanto chorar. - Cafezinho? O que isso significa?!
- E digo mais...- Disse João. - Giovana, se eu te disser que você foi de suspeita pra meliante, e que eu fortemente acredito na sua inocência, você pode, se não for muito além da sua delicadeza, preparar um cafezinho bem fortinho pra todo mundo?
- O que é que tá acontecendo, hein? - Larissa reuniu as forças e perguntou, rasgando a voz pela dor de cabeça e por um rosto demasiadamente inchado de tanto chorar. - Cafezinho? O que isso significa?!
- Calma, amor. Esse bando de banana não sabe nem o que tão fazendo aqui, ainda ficam abusando da nossa boa vontade. - Disse César. Claro.
- É interessante o senhor ter mencionado "boa vontade", senhor César. Eu até acho que ia cair super bem com um cafezinho. Né, não? - João lançou um olhar pra Paula. Que concordou. Depois olhou pra Giovana, já na cozinha, há poucos passos da reunião, por trás do balcão americano, entupindo a cafeteira de pó de café. - Boa vontade é a expressão da noite, eu acho. E o senhor Carlos, o que acha de boa vontade? Tem sobrando por ai?
- Como? - Disse Carlos, aparentemente confuso.
- Come? - Perguntou João?
- Hum? - Disse Carlos.
- Dois? - Disse João.
- Porra, que palhaçada é essa?! - Interrompeu César, levantando-se da cadeira com tanta ferocidade que a mesma caiu pra trás, assustando Larissa duplamente. Uma vez pelo berro, outra pela pancada do móvel. - O senhor, inspetor, tá é frescando com a nossa cara!?
- O senhor poderia se sentar, sr. César Valente? Poderia? - Não era petulância que transbordava da sua voz, e gotejava no chão de mármore até respingar sobre o orgulho de César. Era razão. - Ou é melhor chamá-lo de César Marchand?
- Come? - Perguntou João?
- Hum? - Disse Carlos.
- Dois? - Disse João.
- Porra, que palhaçada é essa?! - Interrompeu César, levantando-se da cadeira com tanta ferocidade que a mesma caiu pra trás, assustando Larissa duplamente. Uma vez pelo berro, outra pela pancada do móvel. - O senhor, inspetor, tá é frescando com a nossa cara!?
- O senhor poderia se sentar, sr. César Valente? Poderia? - Não era petulância que transbordava da sua voz, e gotejava no chão de mármore até respingar sobre o orgulho de César. Era razão. - Ou é melhor chamá-lo de César Marchand?
- O café tá pronto! - Giovana berrou da cozinha. - É pra servir também?!
- Por favor. - Disse Eduardo, atento ao enredo que se desenvolvia na sala.
- Marchand?! Esse sobrenome é do nosso pai! E daí?! - Disse César, ainda de pé, em pleno confronto com João. - O que tem a ver com esse circo?! O que é que isso vai ajudar a achar a minha filha?! - O descontrole emocional era tangível, e por alguns momentos, João teve a mais plena certeza de que um soco o atingiria iminentemente.
- Por favor. - Disse Eduardo, atento ao enredo que se desenvolvia na sala.
- Marchand?! Esse sobrenome é do nosso pai! E daí?! - Disse César, ainda de pé, em pleno confronto com João. - O que tem a ver com esse circo?! O que é que isso vai ajudar a achar a minha filha?! - O descontrole emocional era tangível, e por alguns momentos, João teve a mais plena certeza de que um soco o atingiria iminentemente.
- Ah, mas tem tudo a ver. Tá todo mundo sabendo ou só os irmãos? - João lançou o inquérito.
- Sabendo de que? - Luciana questionou olhando pra Carlos, que parecia tão confuso quanto a namorada.
- Sabendo de que? - Luciana questionou olhando pra Carlos, que parecia tão confuso quanto a namorada.
- Ora... - João completou. - Que o sequestro da menina foi arquitetado por um dos dois aqui. É aquela velha história, né? Família é bom. Dinheiro é melhor.
César partiu pra cima do inspetor, mas tão logo o atingiria com seu corpo, Carlos se colocou entre os dois, e pediu para que o irmão se acalmasse.
- Com esses ataques de fúria tão grandes, César, será que eu acertei? Será que o papai francês vai pagar um resgate valioso? - João sentiu a mão de Paula puxando seu braço, como quem pedisse cautela. - É isso que a menina vale pra você, né, César? Uma dívida milionária em esquemas de empresas fraudulentas! - Tão rápido quanto João terminou a frase, um punho o atingiu em cheio na altura da face, e ele caiu sobre o piso.
- João! - Berrou Eduardo.
Os agentes presentes no local imobilizaram Carlos, o agressor, quase que imediatamente.
- Já deu! Bora! Bora! Todo mundo pra delegacia! Acabou a palhaçada! E o senhor vai responder por agressão!
-Que agressão?! - João balbuceou enquanto se levantava com a ajuda de Paula. - Que agressão?!
Os irmãos, imbolizados pelos agentes, pareciam consusos. Larissa e Luciana estavam aparentemente perdidas como cegos num tiroteio. Giovana segurava a xícara de João em perfeito estado de choque. Espetáculo bom assim era raro.
César partiu pra cima do inspetor, mas tão logo o atingiria com seu corpo, Carlos se colocou entre os dois, e pediu para que o irmão se acalmasse.
- Com esses ataques de fúria tão grandes, César, será que eu acertei? Será que o papai francês vai pagar um resgate valioso? - João sentiu a mão de Paula puxando seu braço, como quem pedisse cautela. - É isso que a menina vale pra você, né, César? Uma dívida milionária em esquemas de empresas fraudulentas! - Tão rápido quanto João terminou a frase, um punho o atingiu em cheio na altura da face, e ele caiu sobre o piso.
- João! - Berrou Eduardo.
Os agentes presentes no local imobilizaram Carlos, o agressor, quase que imediatamente.
- Já deu! Bora! Bora! Todo mundo pra delegacia! Acabou a palhaçada! E o senhor vai responder por agressão!
-Que agressão?! - João balbuceou enquanto se levantava com a ajuda de Paula. - Que agressão?!
Os irmãos, imbolizados pelos agentes, pareciam consusos. Larissa e Luciana estavam aparentemente perdidas como cegos num tiroteio. Giovana segurava a xícara de João em perfeito estado de choque. Espetáculo bom assim era raro.
- Se houvesse mesmo uma agressão, era óbvio que ia todo mundo pra delegacia... né? - João falou enquanto se sentou no sofá, e acenou pra que Giovana trouxesse o cafezinho. Ela o fez e ele segurou a xícara com as duas mãos trêmulas. - E se fosse todo mundo pra delegacia, não ia mais ter busca no prédio, né? Mas acontece... Que não teve agressão, não... Mas era isso que o sr. Carlos Marchand queria, né?
- Oi? Como assim, senhor? Ele agiu por impulso! - Luciana buscou defender o namorado.
- Oi? Como assim, senhor? Ele agiu por impulso! - Luciana buscou defender o namorado.
- Não, não... Ele foi frio e racional. Igual a como quando arquitetou tudo. Tudo. Acontece que Jean Marchand é dono de construtoras, e uma delas é a desse prédio, né, Carlinhos? E quem cuida dos empreendimentos do pai? Vou dar uma dica... Não é o César.
- E dái? Sim, o prédio é meu, é do César. É do nosos pai. Qual a relevância? Você está atirando no escuro, seu demente! - Carlos berrou.
- E dái? Sim, o prédio é meu, é do César. É do nosos pai. Qual a relevância? Você está atirando no escuro, seu demente! - Carlos berrou.
- Não. No escuro não... - João falou pouco antes de dar um pequeno gole do café. - Só alguém com o seu acesso poderia saber a frequencia das câmeras. Só alguém com o seu status saberia como desabilitar o sistema interno de segurança por meio minuto... E foi pra isso que aquela van veio, não foi? Nao sei ainda como, mas foi isso. Foi alguem dentro da van quem desabilitou o sistema do qual você tem o acesso.
- Carlos? - Luciana buscou confirmação nos olhos do namorado.
- Isso é tudo especulação... Poderia ter sido qualquer um. - Disse César.
- É... - Confirmou João. - Poderia mesmo. Mas somente ele tem o acesso ao sistema, como também acesso aos dados da rotina da Giovana e da Beatriz, assim como da família inteira. Né, Luciana?
- Oi? Como assim, gente? O que eu tenho a ver com isso?! - Luciana ficou ainda mais pálida que antes.
- Nem precisa ter sido de propósito, Lu... Bastava ter falado tudo que acontecia aqui na casa, toda vez que você vinha. Ou você nunca comentou nenhuma vezinha que a Giovana saía pro hall pra fumar um cigarro toda tarde...? - João então voltou seu olhar curioso para a moça. - Ou que a Bia ficava na varanda nesse horário, sozinha? E ai, César... Poderia ter sido qualquer um ainda?
César encarou o irmão profundamente, e em seus olhos viu um antigo inimigo da adolescencia e da infância. Um inimigo do qual nunca havia completamente se livrado, mas sim meramente maquiado pela conformidade da vida adulta. Era plenamente capaz de arquitetar o sequestro da própria sobrinha... Ele saberia, pois no fundo de sua alma, em perfeito sigilo, se Beatriz não fosse sua filha, ele seria capaz do mesmo.
- Cadê a minha filha, seu filho da puta? - Disse Larissa, com olhos, outrora azuis como o céu, então avermelhados como as brasas incandescentes do inferno ao qual estava decidida a mandar o cunhado.
César permitiu que lágrimas inteiras escorressem de seus olhos enquanto o punho se fechava numa perfeita arma da evolução humana.
- Carlos... - César tentou como pôde, mas não foi capaz de produzir nada.
- Carlos? - Luciana buscou confirmação nos olhos do namorado.
- Isso é tudo especulação... Poderia ter sido qualquer um. - Disse César.
- É... - Confirmou João. - Poderia mesmo. Mas somente ele tem o acesso ao sistema, como também acesso aos dados da rotina da Giovana e da Beatriz, assim como da família inteira. Né, Luciana?
- Oi? Como assim, gente? O que eu tenho a ver com isso?! - Luciana ficou ainda mais pálida que antes.
- Nem precisa ter sido de propósito, Lu... Bastava ter falado tudo que acontecia aqui na casa, toda vez que você vinha. Ou você nunca comentou nenhuma vezinha que a Giovana saía pro hall pra fumar um cigarro toda tarde...? - João então voltou seu olhar curioso para a moça. - Ou que a Bia ficava na varanda nesse horário, sozinha? E ai, César... Poderia ter sido qualquer um ainda?
César encarou o irmão profundamente, e em seus olhos viu um antigo inimigo da adolescencia e da infância. Um inimigo do qual nunca havia completamente se livrado, mas sim meramente maquiado pela conformidade da vida adulta. Era plenamente capaz de arquitetar o sequestro da própria sobrinha... Ele saberia, pois no fundo de sua alma, em perfeito sigilo, se Beatriz não fosse sua filha, ele seria capaz do mesmo.
- Cadê a minha filha, seu filho da puta? - Disse Larissa, com olhos, outrora azuis como o céu, então avermelhados como as brasas incandescentes do inferno ao qual estava decidida a mandar o cunhado.
César permitiu que lágrimas inteiras escorressem de seus olhos enquanto o punho se fechava numa perfeita arma da evolução humana.
- Carlos... - César tentou como pôde, mas não foi capaz de produzir nada.
- Isso é tudo mentira, gente. Ele não faz a menor ideia de onde a Bia tá! É tudo armação! Mentira pra ganhar ibope com a mídia! Um policialzinho fodido sem eira nem beira, sem ter onde cair morto que ganhar fama em cima da nossa Bia! - Carlos argumentou.
João tomou um último gole do tçao clamado cafezinho. Colocou a xícara sobre o balcão americano e lambeu os lábios pra aproveitar a amargura deixada pra trás.
João tomou um último gole do tçao clamado cafezinho. Colocou a xícara sobre o balcão americano e lambeu os lábios pra aproveitar a amargura deixada pra trás.
- Minha filha - Disse João - Se eu morrer hoje, basta jogar esse café na minha guela abaixo, viu? Levanta até defunto esse chorume. Forte demais, só o amargo. Amei... Melhor que o meu. Eu tomava era outro. Mas tem tempo não... Sabe por que, Carlos, que não tem tempo? Porque eu posso até ser um policialzinho fodido atrás de fama e ibope. Sem eira nem beira... Mas acontece que você errou feio numa coisinha só... - Então João se aproximou do homem ainda detido pelos agentes, e se inclinou para que seu olhar e o dele estivessem sob o mesmo nível. - Eu sei exatamente onde a Bia está!
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