Capítulo SEIS - A Babá

- Nada ainda? - Paula perguntou enquanto lutava contra o tédio ao balcão americano que separava a cozinha da copa. João estava passando a vista pelas anotações dos pais e dos tios. Luciana, que se atrasou ao repassar algumas informações ao agente encarregado de monitar a garagem do condomínio, não conseguia se concentrar o suficiente. Estava trêmula, pálida, e à beira de um colapso. 

- O problema é justamente que tem muitos detalhes. A mãe administra um instituto de idiomas, o que explica a filha ter mais em comum com os vizinhos. O pai é um empresário genérico. Vice-diretor aqui, gerente sênior ali, ações, esquema de pirâmide... 

- Esquema de pirâmide? 

- Ele colocou aqui olha só... Membro Diamante na empresa de recursos Get Rych Easy. Até onde eu sei, é aquela empresa fraudulenta que o Fontenelle tá investigando. Lembra? Tem dinheiro pra caramba nesse esquema. Mas enfim, nada demais. Os tios me intrigam. Carlos e Luciana são multi empreendedores. Doze franquias em 3 shoppings, 2 construtoras estrangeiras, seis ONGs... Seis. 

- Puts. Então a mãe é a figura estranha no quarteto? - Paula indagou.

- Como assim? - João levantou a cabeça. Estava sentado à uma mesa pequena no canto mais distante da lavanderia, que dava acesso à cozinha. 

- Ué, a mãe não tem empresas. Não tem construtura. Não tem esquema pra ficar mais e mais rica. Ela só... Trabalha pra caramba. Ela não se encaixa no perfil ganância.

- Faz sentido... Cadê a Giovanna? A gente não falou com ela ainda. - João parecia movido por uma ideia, ou pelo menos um palpite.

- Na varanda da sala, fumando. Ela passou o dia lá. - Disse Paula.

- Fumando? Traz ela aqui. Agora. Aliás, deixa. Eu vou lá!

...

- Então... Ela tem uma relação boa com a filha? - João, um tanto confuso, perguntou à Giovanna. Os dois apoiavam-se no corrimão de bronze da varanda. O brisa forte os fornecia uma ideia de privacidade, enquanto atravessava a rede de segurança padronizada em todas as janelas do edifício. - Mas então, por que ela disse que todo mundo se dava melhor com a Bia do que ela?

- A Lari é assim, sabe? Ela é uma boa mulher. Linda, forte, guerreira. Mas ela se doa demais. - Giovanna parecia sofrer pela culpa de ter, de alguma forma mística, perdido Bia. - Elas tem uma relação linda. Não importa a hora, nem o quão cansativo foi o dia da Lari. Ela sempre arranjava um tempinho pra ler ou brincar com a Bia. E agora... - Foi aí que começou a se partir de novo. Antes que pudesse desabar, buscou, na terceira carteira de cigarros, o próximo. Acendeu fácil. Não deu nem chance pro vento atrapalhar. 

- Procura ficar menos agitada, certo? Vai dar tudo certo. Eu já passei por esse vício aí também... É mais difícil ainda quando a gente tem algo a temer, né? Um segredo. - João olhava Giovanna de frente. Ela, por outro lado, encarava a paisagem. Enquanto repousava uma mão na rede de proteção folgada, a outra guiava o cigarro aos seus lábios. 

- Qual segredo? O moral ou o financeiro? - Ela voltou seu rosto para o inspetor. 

- Eu nem sequer sabia que tinha dois. A Larissa te emprestou dinheiro, né? Muito dinheiro. Isso te coloca numa situação chata. Mas o pior é que as pessoas ali na sala juram que você tá assim por conta da Bia...

- Eu amo a Beatriz! Ela é praticamente minha filha! Eu amo ela! Amo!

- Eu acredito em você, Giovanna. Mas... Como foi que você conseguiu pegar vinte mil reais emprestados da mãe dessa menina? - João agora estava mais focado. Mais atento. Qualquer hesitação, tique nervoso, ou até o modo de ajeitar o cabelo, poderia indicar algo que ele não estava enxergando. Paula chegou devagar por trás dos dois. Ela percebeu o clima de tensão, e não falou nada.

- Ela ofereceu me ajudar com um problema. Foi ideia dela. 

- Mentira. Eu sei que isso é mentira, Giovanna. Que tal tentar de novo? E se for mentir, melhora essa lábia, menina. - Disse João.

Giovanna jogou o cigarro ao chão e pisou em cima. Ele caiu em meio a inúmeros outros fumados pela metade. Passou as mãos pelos cabelos. Olhou para trás para certificar-se de que ninguém os ouvia. O movimento dos olhos, o desespero pra segurar a informação; o trunfo; a carta na manga. 

- Foi extorsão! - João apontou o dedo. Era claro demais. Anos de experiência contra uma consciência pesada de uma jovem. - Mas... Por que? O que foi que você descobriu?

Giovanna desistiu da paisagem e respirou fundo. Olhou João de frente, e antes de passar por ele e seguir para a sala, junto aos demais, ela lhe respondeu...

- O caso de amor dela...!!!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Capítulo UM - A Lápide Ao Sol